Flexibilidade na prevenção de lesões e na taxa de produção de força

O uso de exercícios de alongamento para aumentar componentes de flexibilidade têm, de uma forma geral, o objetivo de diminuir a incidência, a intensidade ou a duração de lesões músculo-tendinosas e articulares. E, de facto, numa primeira instância, tanto no treino de populações sedentárias como de atletas avançados, um aumento da flexibilidade e da força muscular em conjunto parecem diminuir consideravelmente o risco de lesões articulares, mesmo quando a carga de trabalho aumenta devido à progressão do treino Dantas (2003). Muitos especialistas em medicina desportiva acreditam que a flexibilidade possa ter efeitos positivos na prevenção de lesões no exercício. Clarke (1975) aponta para um papel importante que o treino de flexibilidade desempenha na prevenção de problemas como distensões, estiramentos ou lesões por over-training (Corbin & Noble, 1980; Ciullo, 1986; Araújo, 1987; Worrel & Perrin, 1992). Para reforçar esta evidência, um estudo realizado por Amako et al. (2003) com 901 recrutas da Força Militar do Japão concluiu que o alongamento estático realizado em complemento com o treino diário diminui a incidência de lesões musculares e tendinosas, bem como lesões por overuse ou over-training. Contudo, este não foi o único estudo a ser feito na área da prevenção de lesões. Nicholas (1970) constatou haver uma maior incidência de lesões nos ligamentos do joelho em indivíduos treinados, com perfis reduzidos de flexibilidade. Clement, Taunton e Smart (1984), com uma amostra de 109 indivíduos de ambos os sexos, praticantes de corrida, determinaram que uma flexibilidade insuficiente na articulação do tornozelo estaria relacionada com uma maior incidência de tendinite no tendão de Aquiles. Este resultado foi explicado pelos autores como sendo uma questão de técnica e não de força. Em vários aspetos, a flexibilidade dos tornozelos é mais importante para a propulsão (tanto na corrida ou outra ação que requeira impulsão) do que a própria força muscular. Isto deve-se ao facto de a potência ser muito mais influenciada pela técnica de execução e por um bom ângulo de aplicação de força. Esta boa técnica de execução, aliada a uma boa mobilidade e amplitude articulares, pode equivaler a mais de 50% de propulsão obtida. Reid, Burnham, Saboe e Kushner (1987) indicam que níveis reduzidos de flexibilidade nas ancas estão relacionados com sintomas de dores, estando essas dores localizadas não só na própria articulação como também em articulações próximas com no joelho e na coluna lombar.

Por outro lado, Gleim e McHugh (1997) afirmam que enquanto não se fizerem estudos suficientes com controlo sobre grande parte das variáveis intervenientes, nunca se conseguirão resultados concordantes nesta área. Este facto pode explicar-se pelos diferentes contextos em que estes estudos foram feitos. a especificidade dos protocolos aplicados e dos diferentes tipos de populações, dificultando a eficiência da representatividade dos resultados. Deve se considerar que nem todas as lesões têm o mesmo conjunto de fatores. Enquanto que há lesões que são, de facto, produto de flexibilidade insuficiente, existem outras que podem ter um contexto completamente diferente, daí os resultados de alguns estudos serem mais controversos.

Aquilo que está provado é que um bom treino de flexibilidade protege os músculos contra danos, uma vez que melhora a circulação sanguínea nessas estruturas, mantendo-as assim saudáveis. Os efeitos específicos que a flexibilidade tem na aptidão já vão depender dos objetivos do treino.

Flexibilidade na taxa de produção de força

Um estudo realizado por Tricoli e Paulo (2002) investigou o efeito agudo dos exercícios de alongamento estático no desempenho de força máxima. Neste estudo, 11 indivíduos do sexo masculino foram submetidos a um teste de 1RM em duas condições distintas: um grupo executaria o teste sem qualquer tipo de exercício de alongamento estático precedente ao teste de 1RM e o outro grupo com um aquecimento de 20 minutos com exercícios de alongamento antes do teste. Este teste consistiu na execução completa de um exercício na máquina Leg Press.

Constatou-se, então, que o grupo que realizou exercícios de alongamento estático obteve resultados no teste de 1RM consideravelmente inferiores, comparado com o grupo que não procedeu de qualquer tipo de alongamento. Deste modo, o alongamento estático provocou um declínio no rendimento da força máxima.

Contudo, embora o treino de flexibilidade se tenha demonstrado pouco favorável em contexto de pré-treino, a aparente diminuição de força manifestada pelos indivíduossubmetidos ao estudo é temporária, havendo uma rápida recuperação da força muscular. Deste modo, se os indivíduos tivessem executado o teste algumas horas depois, os resultados de força máxima já não seriam comprometidos. Pelo contrário, existe um aumento da taxa de produção de força em ROM elevados em indivíduos mais flexíveis que executam treino de flexibilidade em complemento com o treino de força, em sessões separadas (Alonso et al., 2009).

Referências Bibliográficas

Dantas EHM. (2003) A Prática da Preparação Física. Rio de Janeiro: Shape.

Clarke, H.H. Joint and body range of movement. Physical Fitness Research, v.5, n.4, pp.1-21, 1975.

Nicholas, J.A. Injuries to knee ligaments: relationship to looseness and tightness in football players. Journal of the American Medical Association, v.212, p.2236- 2239, 1970

Clement, D.B., Taunton, J.E., Smart, G.W. Achilles tendinitis and peritendinitis: aetiology and treatment. American Journal of Sports Medicine, v.12, n.3, p.179- 184, 1984.

Reid, D.C., Burnham, R.S., Saboe, L.A., Kushner, S.F. Lower extremity flexibility patterns in classical ballet dancers and their correlation to lateral hip and knee injuries. American Journal of Sports Medicine, v.15, pp.347-352, 1987.

Tricoli V, Paulo AC. Efeito agudo dos exercícios de alongamento sobre o desempenho de força máxima. Rev Bras Ativ Física Saúde 2002;7:6- 13.

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