Desporto para indivíduos com doença renal crónica

A doença renal crónica (DRC) resulta da lesão estrutural do rim, seguida de diminuição progressiva da função renal e está associada a outras patologias, nomeadamente, a diabetes mellitus e a hipertensão. Em Portugal, estima-se que cerca de 900.000 portugueses sofrem de DRC e que 16.000 dependem de diálise, sendo que a causa de morte mais prevalente nestes doentes são os eventos cardiovasculares. A hemodiálise é o tipo de tratamento mais indicado quando os rins deixam de funcionar, evitando que a quantidade de substâncias tóxicas e o excesso líquidos se acumulem no sangue, o paciente é submetido a uma intervenção cirúrgica na qual é criado um acesso vascular que liga uma linha arterial à outra, de forma a existir o retorno do sangue que por sua vez é ligada à máquina da hemodiálise. Os pacientes com DRC são na sua maioria fisicamente inativos, o que nesta população, pode ter efeitos na má qualidade de vida e ainda consequências mais graves como a morte, por isso, o exercício físico tem vindo a ser associado como fundamental no aumento da qualidade de vida e da saúde destes pacientes.

As pessoas com DRC submetidas a diálise podem apresentar: fraqueza muscular, anemia, doenças Cardiovasculares, depressão, hipertensão Arterial, alterações metabólicas e respiratórias e desnutrição 

Todos estes fatores contribuem para a diminuição da capacidade funcional, para a baixa tolerância ao exercício físico e, consequentemente, para a dificuldade de realização das atividades de vida diária. As pessoas com DRC apresentam menor capacidade física e funcional quando comparados à população geral.

De forma a prevenir, tratar e/ou estabilizar as manifestações acima referidas, o tratamento da DRC deve incluir a reabilitação física. Cada vez mais estudos revelam que a fisioterapia e o exercício físico são partes integrantes dessa reabilitação, uma vez que contribuem de forma significativa na prevenção, no retardo da evolução e na melhoria de várias complicações apresentadas.

O exercício físico melhora a função cardíaca, reduzindo arritmias e tornando o ritmo cardíaco em repouso, mais baixo, melhora a força, a resistência e a morfologia muscular, associado a uma alimentação equilibrada, pode baixar os níveis do mau colesterol (LDL) e dos triglicerídeos, aumenta a convivência social, diminui a resistência à insulina, auxiliando a manter os valores de glicose no sangue estáveis, assim como inúmeros outros fatores positivos.

Quase todas as pessoas em diálise podem praticar exercício físico, dependendo da condição física e de outras doenças associadas. Se apenas apresentar falência renal, tem bastantes opções. Pode exercitar-se em casa, no ginásio, num clube ou na rua. O ideal é falar com o seu médico de saúde para ter permissão e realizar alguns exames antes de iniciar num desporto ou atividade física.

A escolha tem de ter por base a preferência pessoal de cada indivíduo, mas também as suas limitações. No início, é vantajoso que tenha um Personal Trainer que o acompanhe com uma prescrição de exercícios adequados. Os melhores programas de exercício englobam treino cardiovascular, força e flexibilidade. O exercício cardiovascular é aquele que deve dedicar mais tempo (caminhar, andar de bicicleta, correr) mas precisa de ter alguma força para o desempenhar.

Cada pessoa tem o seu ritmo e disponibilidade e tudo depende dos exercícios e/ou modalidades que escolher. Deve treinar, pelo menos, 3 vezes por semana e deve começar por treinos curtos, só depois é que se devem prolongar no tempo. A média deve ser de 30 minutos por sessão.

De acordo com a revisão sistemática da literatura efetuada é possível perceber que os indivíduos com DRC sujeitos à hemodiálise são maioritariamente inativos e que já o eram antes de desenvolver esta doença, deste modo são indivíduos extremamente descondicionados, muitos não são capazes de realizar exercício físico contínuo, podem apresentar alguns contratempos médicos que requerem ajustes no programa de treino, têm risco elevado de fratura, elevada prevalência de problemas ortopédicos e presença de outras patologias como a diabetes e a hipertensão. Desta forma, é necessário ter muita atenção com o plano de treino que é prescrito para esta população, sendo muito importante motivar e incentivar estes indivíduos a participar nos programas de treino e explicar-lhes quais são os seus efeitos no bem-estar e saúde.

Em suma, os pacientes com DRC e sujeitos à hemodiálise têm bastantes benefícios ao participar num programa de treino contínuo e bem estruturado, que esteja de acordo com as necessidades desta população e que tenha em atenção todas as contraindicações que podem advir desta doença crónica. Além disso consideramos que uma aplicação prática para o futuro deveria ser a inclusão de um programa de treino no tratamento dos indivíduos que fazem hemodiálise. 

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